PHDA é um distúrbio real que exige ação

Estima-se que a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) seja a perturbação do neurodesenvolvimento mais frequente (abarcando entre 3 a 7% das crianças) e é claramente sub-diagnosticada no nosso país. São muitos os mitos acerca da PHDA, ao nível do diagnóstico, tratamento, impacto no desenvolvimento, criminalidade e custos para a saúde, mitos esses que também confundem os médicos de família. Com vista a dissipá-los e a perceber melhor qual o papel que o médico de família pode desempenhar na gestão da patologia, a APMGF vai organizar no 37º Encontro Nacional, com o apoio do seu Grupo de Estudos de Saúde Infantil e Juvenil, a mesa «Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção - dos mitos à evidência!»

Os oradores convidados a intervir nesta mesa serão Óscar de Barros, médico de família na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) Azambuja, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção e co-autor do livro «Os Inimigos das Crianças – a iliteracia científica e os mitos da ignorância») e Catarina Esteves Ferreira, pedopsiquiatra do Hospital de Braga. O moderador da sessão, Hélder Aguiar – médico na USF São João (São João da Madeira) e coordenador do Grupo de Estudos de Saúde Infantil e Juvenil (GESIJ) da APMGF – considera ser importante abordar esta questão: “sentimos que ainda prevalecem ideias menos corretas sobre o tema, não apenas na população, mas também nos profissionais. É um problema que surge com frequência no âmbito do trabalho do médico de família na vigilância das crianças em idade escolar e que pode permanecer depois, na adolescência e mesmo na idade adulta”. 

O coordenador do GESIJ esclarece que ainda não existem dados nacionais fiáveis de prevalência da PHDA, mas diz ser expectável que a mesma “seja semelhante à de outros países ocidentais, entre 3 a 7% da população em idade escolar e de cerca de 2,5% nos adultos. Seria interessante que um grupo de especialistas e internos de MGF se interessassem por este tema e, quem sabe, possa surgir um estudo de investigação multicêntrico sobre a PHDA em Portugal, incluindo a sua prevalência”.

O que Hélder Aguiar reforça, em primeira instância, é o facto de a PHDA ser um problema real, que implica vigilância apertada por parte da classe médica para que se possa entender quão grande é o icebergue abaixo da linha de água: “poderá haver sobre-diagnóstico se as vias estabelecidas e recomendadas de diagnóstico não forem utilizadas. É um problema que, embora se possa suspeitar dele, não se pode diagnosticar numa única consulta ou por um único profissional. A criança tem que ser avaliada em vários contextos, existem escalas validadas e o diagnóstico deve ser efetuado por profissionais especializados na área. O papel do médico de família é muito importante, porque representa a porta de acesso das crianças, jovens e mesmo adultos com este problema. E é um problema que tem dois espectros de apresentação diferentes, o hiperativo e o défice de atenção, não necessariamente coexistentes num mesmo indivíduo. Sobretudo nas crianças com a apresentação predominantemente por défice de atenção o que existe sobretudo é o subdiagnóstico, e isso tem um impacto profundo nestas crianças e jovens que terão muito mais dificuldades em ter um bom rendimento escolar e mesmo a nível relacional. Acima do ruído do sobrediagnóstico e subdiagnóstico que possa existir, existe a boa prática clínica que faz a diferença. Esta mesa é sobre isso!”.

 

Soluções farmacológicas e não farmacológicas em análise

No que respeita ao contributo que têm ou podem vir a ter os especialistas de MGF na gestão de planos terapêuticos que incluem medicamentos como atomoxetina, lisdexanfetamina ou metilfenidato, Hélder Aguiar é claro: “em relação à monitorização terapêutica os especialistas de MGF podem ter um papel importante, sobretudo na avaliação à adesão terapêutica e adesão às consultas dirigidas. Não obstante a colaboração que possam também dar no caso de detetarem, de forma oportunista, algum possível efeito secundário da medicação (e é importante ter noção dos principais efeitos secundários, como as palpitações e as alterações do humor e, menos frequentemente, a psicose, pensamentos suicidas ou o síndrome de Tourette), o acompanhamento dos efeitos laterais e da continuidade do tratamento é de facto mais da responsabilidade do médico especializado em PHDA que inicia a terapêutica, seja o pediatra do desenvolvimento ou o pedopsiquiatra. No meu entender, o médico de família poderá colaborar na renovação da prescrição crónica dos medicamentos instituídos para a PHDA, desde que a criança ou jovem continue a ser acompanhado na consulta especializada”.

As opções não farmacológicas para esta doença, como sejam as terapias cognitivo-comportamentais ou os programas educativos/de formação parental, também vão ser dissecadas nesta mesa. “Serão abordadas todas as opções que têm evidência científica! Este é um cuidado que estamos a ter. Fazemos questão de apresentar o tema de forma sincera, sem qualquer conflito de interesse, partilhando a melhor evidência que existe sobre a PHDA nas várias áreas, desde o diagnóstico ao tratamento. Pretendemos também mostrar as dificuldades reais, no contexto nacional, que temos em diagnosticar e orientar as crianças e jovens e prevejo que este seja um tópico predominante no debate em conjunto. Estou convicto que todos sairemos da sessão enriquecidos para fazer a diferença na vida das crianças e jovens (não esquecendo os adultos) que têm de facto este problema”, conclui o coordenador do GESIJ.

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